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6. As aves que nos animam

6. As aves que nos animam
Por Carlos Maria Trindade

As aves têm, em geral, a reputação de serem muito bons músicos. Não só conseguem imitar sons que ouvem repetidamente, como ainda improvisam descontraídamente sobre a realidade imitada. Os melros, as araras, as calhandras, os papagaios ou os periquitos são aves que conseguem reproduzir sons vocais com uma perfeição estonteante. Se um assobio lhes for dado numa tessitura demasiado grave, eles transpõem a frase completa para os agudos e reproduzem-na, acrescentando-lhe muitas vezes trinados e requebros originais.

A audio comunicação entre homem e pássaro chega a fazer-nos pensar que a maior parte da raça humana está num plano musicalmente menos sensível que as aves canoras. Quantos destes cantores, mesmo enclausurados em gaiolas, vão alegrando diariamente tantas vidas monótonas? Há aves que chegam a emitir 130 sons em 7 segundos.

Mas o canto pode também servir para sua própria orientação em meios ambientes mais complexos. Nas florestas do Uganda, os gonoleks são aves que cantam continuamente em duo, para não se perderem na intrincada folhagem higrófila da floresta africana. Numa primeira análise, o canto parece vindo de um pássaro só, tal é a sequência lógica que um dá à frase do outro mas os ornitólogos descobriram que a maior parte das vezes eles se deslocam aos pares e que existem micro-silêncios que separam o discurso musical de cada um.

O professor inglês W. Thorpe, chegou a fazer medições cronométricas desses silêncios e a conclusão foi que certos casais os respeitavam até ao milésimo de segundo. Sempre iguais. Ora uma ave que consegue manter pausas de 14 milisegundos entre as suas frases revela uma capacidade de reacção e percepção três vezes superior à do homem.

Consta que certos melros chegam a moldar o seu canto ao tempo de um metrónomo. Se atrasarmos ou acelerarmos o batimento, eles escolhem as frases do seu reportório que mais têm a ver com a cadência imposta.

O professor Konrad Lorenz, prémio Nobel de Fisiologia/Medicina em 1973 pelos seus estudos sobre o comportamento animal (Etologia), afirma que o canto de muitas aves atinge o seu mais alto nível de perfeição e o máximo da sua virtuose não quando se trata de definir um território. Nem de atrair uma fêmea, nem de intimidar um rival, mas sim quando se encontram num estado de excitação mais moderado.
Quando o canto é função de uma atitude específica relacionada com afastar adversários ou seduzir fêmeas, os requintes mais delicados são postos de parte. Em nome da eficácia e do instinto, talha-se a obra de arte.

O pássaro cantor parece assim atingir o ponto culminante das suas realizações artisticas exactamente no mesmo estado de espírito que o homem: num certo equilíbrio psíquico suficientemente afastado do sério da vida a fim de que possa dar livre curso às suas tendências lúdicas.

Nota: Carlos Maria Trindade escreve de acordo com a antiga ortografia.

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