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5. Apreciar os “Sons Sociais” das outras espécies

5. Apreciar os “Sons Sociais” das outras espécies
Por Carlos Maria Trindade

Os sons que as diversas espécies animais produzem na sua necessidade de comunicação instintiva sempre despertaram a minha atenção. Não só ao nível da escuta como treino musical, mas também a nível da atitude que vou tendo em relação ao universo sonoro de que tenho conhecimento. E os animais são, com certeza, uma parte importante desse meu universo.

Tento assim libertar-me da ideia de que o sentido estético contido nas formas musicais é apanágio exclusivo e inseparável da minha espécie e assumo que a linguagem de outros animais pode ser, como parte integrante de uma paisagem sonora num determinado momento, tão fascinante quanto um dialecto ou uma manifestação artística humana.

Ao largo das Antilhas, um jovem golfinho afasta-se demais do seu grupo e é atacado por três tubarões. Emite imediatamente uma série de assobios. Uma mensagem de socorro na linguagem da sua espécie. Sons curtos e repetidos que se assemelham a uma sirene de alarme, alternadamente ascendentes e descendentes. O resultado é espantoso. O grupo, composto de uma vintena de golfinhos que nadavam em animada conversação, cala-se instantaneamente. Por um momento, estabelece-se um silêncio anormal e absoluto. Logo de seguida, os animais lançam-se para o lugar da agressão a uma velocidade de aproximadamente 60 kms/hora. Enquanto os machos se esforçam por atingir as cartilagens dos inimigos com violentas marradas dorsais, as fêmeas rodeiam a vítima já ferida e, amparando-a, levam-na para porto seguro.

A linguagem dos golfinhos é um bom exemplo de uma mancha sonora complexa, composta de assobios, estalidos, gargarejos e outros sons difíceis de descrever com palavras, emitidos em glissandos muito rápidos e alternadamente modulados do agudo para o grave. Tal como a ênfase entoada que utilizamos para fazer uma pergunta no “ruído” da nossa linguagem.

O diálogo entre golfinhos é bastante sofisticado e pode prosseguir mesmo que um deles se insira num grupo barulhento. Os cientistas chamam-lhe o “efeito cocktail” e parece ser possível porque existem sons no discurso de cada um que são autênticos identificadores pessoais do tipo “Está lá? Daqui fala o Max!” que utilizamos para começar uma conversa telefónica. Assim, cada um deles sabe perfeitamente com quem está a comunicar.

O assobio parece, de facto, pelas suas características de fácil propagação, ter sido também o principal formato acústico de uma comunicação humana à distância que ía para além do horizonte visual.

Os habitantes de algumas aldeias dos Pirinéus Franceses utilizam ainda hoje uma linguagem feita de assobios para comunicar entre encostas. Da mesma maneira que , nas Ilhas Canárias, o silbo gomero é um código em que os assobios são modulados pelas diferentes posições de 5 dedos que canalizam o ar à saída da boca. O ar é “apertado” e vibra a frequências bem audíveis, tal como o vento forte por uma fresta.

A agência Associated Press anuncia em Moscovo que um grupo de golfinhos “pediu ajuda” a um barco de pesca soviético não muito longe da costa da Crimeia. A pequena embarcação foi rodeada pelos animais e empurrada na direcção de uma bóia. Os tripulantes encontraram então um jovem “specimen” preso nos cabos e conseguiram libertá-lo. O grupo acolheu o acontecimento com grandes assobios e estalidos de alegria, tendo depois acompanhado ruidosamente o barco até ao porto. Eternamente gratos.

Conclusão: os “sons sociais” de algumas espécies do mundo selvagem podem interagir connosco se formos sensíveis a isso. Quantas vezes tenho a impressão, aqui nas colinas da Malarranha, que este ou aquele pássaro está a cantar para mim.

É das aves, os grandes sopranos, que falarei no próximo artigo. Até lá.

Nota: Carlos Maria Trindade escreve de acordo com a antiga ortografia.

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