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Na pré-história dos sentidos

Na pré-história dos sentidos
Por Carlos Maria Trindade

Quantas pessoas sabem identificar um tom rosa-velho e distingui-lo da cor vermelha? Quase todas. Quantas pessoas sabem distinguir o timbre de um clarinete do timbre de um oboé? Poucas sabem. Poucas tiveram essa necessidade. Na vida do dia a dia as cores existem, são discutidas e relembradas, os tons são analisados (nas roupas por exemplo), bem conhecidos, descritos, memorizados. Os sons não. Porque não se vêem. Porque não se vestem. Porque não há uso imediato para eles. A aprendizagem, na relação directa da necessidade, é mais lenta do que a dos elementos visuais.

Mas imagino uma época em que os cinco sentidos estejam apurados por igual. Aí vai ser mais interessante porque deixam de haver os mundos sensoriais considerados “menores”.

O sentido do olfacto, por exemplo, é aparentemente limitadíssimo. O espectro de sensações que a nossa pituitária identifica reduz-se a meia dúzia de dados. Cheira bem, cheira mal, e pouco mais. Mas a arte da perfumaria desenvolve-se cada dia que passa e com ela, quer queiramos quer não, o nosso nariz.

Da mesma maneira que a arte da gastronomia nos fornece novos paladares. Experimentar novas cozinhas, comidas exóticas, outros vinhos e licores, faz parte de uma educação que cada vez mais se pretende universal e cosmopolita.

E o tacto? O tacto político tem-se desenvolvido, para o bem e para o mal. Mas o sensorial? Tactear é considerado coisa de cegos, de autistas ou de loucos. Experimentem parar de ler e tactear várias superfícies à vossa volta. Analizar a textura da capa de um livro, do teclado do computador, a rugosidade do tampo da mesa de madeira. Quanto tempo estamos sem tactear conscientemente?

Estamos pois na pré-história do desenvolvimento dos nossos próprios sentidos. A prova disso é quando se perde um dos sentidos e os outros quatro começam a revelar o seu verdadeiro potencial ao tentar substituir o sentido perdido.

Um cego, por exemplo, desenvolve de forma extraordinária os restantes sentidos, em especial o tacto e a audição. O cego consegue desenhar um “mapa acústico” completíssimo quando entra num ambiente desconhecido; só por análise de ecos, reflexões de som, reverberações, ele descobre se as paredes são de mármore ou madeira, a idade e a personalidade das pessoas que falam, a dimensão aproximada do recinto, enfim, a radiografia geral do ambiente. Fascinante.

Agora imaginem por um momento, que tinhamos os nossos sentidos todos afinados pela sua utilização máxima e igualmente desenvolvidos. Como seres mais sensíveis ao ambiente que nos rodeia, seriamos obrigados a ter muito mais cuidado com ele. Esteticamente. Qualitativamente.

Eu pessoalmente, se tivesse que escolher entre os dois sentidos, preferia ser cego do que surdo, mas como, graças a Deus, fui brindado com os cinco sentidos, só tenho que agradecer à “fábrica divina” e continuar a esforçar-me por os desenvolver ao máximo. Não será para isso que cá andamos?

Nota: Carlos Maria Trindade escreve de acordo com a antiga ortografia.

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