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Notas adicionais para um Solfejo Audio Ecológico

Notas adicionais para um Solfejo Audio Ecológico
Por Carlos Maria Trindade

Por cima do Monte onde vivo, na Malarranha, cruzam-se vários corredores aéreos. É normal olhar para cima e ver o céu cortado por faixas brancas. Gases condensados deixados pelos aviões como rasto. Se não houver vento forte e me concentrar nisso, consigo ouvir os motores muito ao longe ou seja, a dez mil metros de altitude. Só prova que o nosso sensor da audição, o ouvido, é uma máquina fantástica. O som propaga-se através do ar em ondas de pressão e a uma velocidade de 340metros/segundo. O que quer dizer que o som do avião demora quase meio minuto a chegar até mim e quando cá chega é quase inaudível.

Mas já quase toda a gente viajou de avião e notou que o ruído dos motores é insuportável se estivermos na pista. A sensação é quase de dor. Conclusão: a intensidade de um som varia muito com a distância. O mesmo avião pode ser quase fatal para o ouvido como pode quase não se ouvir. Tudo depende do ponto em que nos encontrarmos em relação a ele. Foi por isso inventada uma unidade de medição da intensidade dos sons. Chama-se decibel ou db, se abreviarmos o nome.

Ao atribuirmos o valor 0db ao limiar inferior de audição humana (valor médio abaixo do qual o ouvido humano deixa de registar qualquer pressão acústica), ficamos com uma tabela como a da figura.

intensidadestabela

Agora precisamos de um aparelho que registe as intensidades. O clássico seria um sonómetro, que tem mais ou menos a dimensão de um telemóvel e regista qualquer som em dbs com grande precisão mas hoje em dia existe um Soundmeter App grátis para o Android que faz o mesmo efeito.

Chegamos assim ao conceito de mapa sonoro uma espécie de “planta acústica” resultante de uma série de medições e gravações feitas numa determinada zona e que reflecte a vida acústica desse local em relação a intensidades e tipos de som, sejam eles agradáveis ou não, fixos ou nómadas, a evitar ou a preservar. Estes mapas definem a “impressão digital audio” duma região, da mesma maneira que a paisagem é a sua vertente visual.

Linhas isodecibélicas: num mapa sonoro, são as curvas que se obtêm unindo os vários pontos cujos sons possuem a mesma intensidade medida em dbs.

Marcos sonoros: são os sons fixos, esporádicos ou periódicos, que caracterizam uma determinada paisagem sonora. Gosto de dar um farol como exemplo porque é um marco sonoro da costa marítima por excelência. Numa orla como a Portuguesa, de fim ocidental da Europa, os faróis são uma espécie de monólogo do continente para o Atlântico. A sirene do quartel de bombeiros é outro marco sonoro que ajuda a agrupar o corpo de bombeiros e informa a população do tipo de desastre (ou festividade) que anuncia, pelo número de vezes que toca. É portanto uma marca sonora de cariz social que serve a comunidade. Da mesma forma os sinos de uma igreja são marcos sonoros que chamam a população para as cerimónias religiosas e informam as horas ao longo do dia.

Marcas sonoras podem ser considerados os marcos sonoros que se movimentam na paisagem sonora e vão contribuindo para as suas variações ao longo do dia, mais provavelmente originados por seres vivos:

um bando de pássaros e a chilreada do fim da tarde à volta das árvores onde pernoitam

um rebanho de ovelhas que anima os campos não só com os seus balidos mas agitando os chocalhos que trazem ao pescoço.

À noite, uma coruja e o seu piar espaçado que muitos consideram lúgubre.

Temos agora os conceitos que constituem a base de uma paisagem sonora, ou seja, estamos prontos para abrir os ouvidos e usufruir de todo um mundo que sabemos existir mas ao qual se calhar não ligamos o suficiente.

Nota: Carlos Maria Trindade escreve de acordo com a antiga ortografia.

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