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Carlostrindade

Passeios audio

(Continuação do artigo Solfejo Audio Ecológico)
Por Carlos Maria Trindade

Como segundo exercício do seu seminário, Murray Schaffer propôs que os participantes se agrupassem em pares. Em cada par, há um que coloca uma venda nos olhos do outro e vai ajudá-lo como cicerone de um passeio pelas instalações e jardins da Gulbenkian.
O estado de cegueira temporário tipo “cabra-cega” serve para que o “passeado” descreva posteriormente o percurso pelas impressões acústicas que lhe chegaram aos ouvidos. O “passeante” que entretanto fixou o itinerário e ajudou o “ceguinho” a movimentar-se sem perigo, dando-lhe a mão e instruções como “virar à esquerda”, “subir dois degraus”, “seguir em frente sem medo”, etc., vai corroborar ou não a descrição do parceiro e as conclusões finais comparam-se.

Quem quiser fazer a experiência (o jogo é óptimo para casais) vai chegar à conclusão que ouvimos bastante menos se fizermos o mesmo percurso em condições normais e de olhos abertos.
Se o nosso “guia” for suficientemente competente para nos dar a segurança necessária durante o passeio, ficamos então completamente à vontade para usufruir das mudanças constantes de paisagem sonora. Por exemplo, é notável a transição de uma sala fechada (identificável pela ressonância das vozes, o som dos passos, risos) para um jardim (colocação espacial dos sons muito mais definida, ausência de reverberações ou ecos, presença de sons naturais e possivelmente, na cidade, percepção da inevitável baixa frequência contínua que caracteriza o ruído do tráfego motorizado ao longe).

Todas estas mudanças são acompanhadas de outras experiências sensoriais: olfactivas (provável cheiro a terra húmida e flores no jardim), percepção de mudanças de temperatura (o ar condicionado da sala, a ligeira corrente de ar na zona da porta de acesso ao jardim, o ar mais quente no exterior) e tácteis (o mármore da sala liso e frio, o cimento mais rugoso dos acessos ao jardim), a relva, mole e elástica. Enfim, uma experiência muito diferente porque estamos desprovidos do sentido mais forte: a visão. Sem ela tudo se altera e os restantes sentidos, ao tentar substituir os dados visuais, têm a grande oportunidade de se desenvolver acima do desempenho complementar a que geralmente têm direito.

Suponhamos que fico sem imagem no meu video, oiço apenas os diálogos e a banda sonora e tento por aí reconstituir o filme. Como experiência é sempre útil. O segundo exercício que Murray Schaffer propôs naquela manhã pressupunha mais ou menos essa intenção mas aplicada ao ambiente sensorial múltiplo no qual vivemos mergulhados, desde o momento em que acordamos até ao deitar.

Da parte da tarde, Schaffer sugeriu que todo o grupo se concentrasse no centro do jardim e disse-nos: “Vamos afinar as nossas vozes em uníssono e de seguida separamo-nos, indo em várias direcções, entoando sempre o mesmo som. Depois de “cobrirmos” os jardins com o nosso uníssono, voltamos aqui e veremos quem deixou “descair” o som”.

Os dois exercícios denunciavam bem as principais directrizes da filosofia pedagógica do mestre. Por um lado admitir e viver a experiência física de paisagens sonoras. Por outro lado sugerir o conceito de afinação do mundo, ou seja, tentar que o homem se integre inteligentemente nelas em lugar de as destruir com mamarrachos acústicos.

A noção de arquitectura paisagística sonora nasceu-me nesse dia e alterou para sempre a minha audição do mundo.

Nota: Carlos Maria Trindade escreve de acordo com a antiga ortografia.