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Solfejo Audio Ecológico

Por Carlos Maria Trindade

Numa série de artigos, tentarei explanar o que considero as bases de um “solfejo audio ecológico” e falarei dos prazeres humildes de bem ouvir, como uma jangada na tempestade multi sensorial, real e virtual, cada vez mais complexa que hoje habitamos.

1. O encontro com o mestre.

Normalmente, o passado de cada um está cheio de “datas” que não é possível marcar com precisão no calendário da memória. Vivências ou acontecimentos que deixaram impressões profundas, que alteraram a nossa maneira de pensar, mas às quais não sobreviveram vestígios documentais.
Um evento do qual não tenho qualquer prova física foi a vinda a Portugal do pedagogo-compositor canadiano Murray Schaffer, algures nos anos 70, mas as impressões foram tão fortes que se torna fácil lá voltar.
Foi das experiências que mais me abriu os horizontes por uma simples razão: Murray Schaffer ensinou-me a ouvir bastante melhor com os mesmos ouvidos. Como? Demonstrando que a atenção auditiva das pessoas vai para os fenómenos estritamente musicais, quando o universo sonoro audível é bastante mais rico e complexo que isso.

Segunda metade da década de 70, Lisboa. A Associação Portuguesa para o Ensino Musical (APEM) organiza um encontro de uma semana nas instalações da Fundação Calouste Gulbenkian. Principal finalidade: sensibilizar e reciclar algumas dezenas de professores de Educação Musical de todo o país para as tendências pedagógicas contemporâneas e sobretudo abrir-lhes os ouvidos através de uma série de exercícios muito simples.
Tive o privilégio de ser nomeado tradutor do seminário (Murray explicava-se em Inglês). Foi assim que, de um poleiro privilegiado, participei nos acontecimentos que viriam a transformar a minha audição adolescente numa audição um pouco mais adulta.
Os exercícios que Murray sugeria eram de uma simplicidade e eficácia extraordinárias. Lembro-me que no primeiro dia de manhã, depois das inevitáveis apresentações, toda a gente se sentou, fez-se silêncio e o mestre disse:
“A partir deste momento, e nos próximos cinco minutos, assentem numa folha de papel todos os sons que ouvirem. No final desse tempo vamos comparar experiências”.
Apareceram coisas deste tipo:

aparo de caneta a arranhar no papel
buzinadelas agudas no exterior (duas vezes e curtas)
tosse no fundo da sala
telefone algures noutra sala
aparo no papel
passos nas placas de cimento, lá fora no jardim
buzinadela longínqua e impaciente (uma só vez e comprida)
trinado de pássaro no exterior
mais tosse
motorizada ao longe
murmúrio no fundo da sala
arrastar de cadeira
mais pássaros
espirro abafado
pulseira contra tampo de mesa
voz de Murray “the time is over”

No final comparámos experiências. Cada um leu em voz alta tudo o que tinha escrito no papel e foi interessante chegar à conclusão que muita gente não ouviu sons que deveria ter ouvido, outros alteraram a ordem dos acontecimentos, houve ainda quem provocasse ruídos com o fim exclusivo de serem perceptíveis em toda a sala e por aí fora.
A finalidade era acordar os ouvidos logo pela manhã, uma espécie de “espreguiçar auditivo”, e concentrar as pessoas num esforço de ouvir a partir do silêncio quase perfeito que se instituiu na sala, como num exame, independentemente de os sons serem interessantes ou não.

Carlos Maria Trindade

  1. círculos de transformação
    círculos de transformação05-12-2013

    Caro Carlos Trindade,

    Sou membro coordenador de uma associação sem fins lucrativos Círculos de Transformação.
    Li , por acaso, o seu artigo e fiquei muito interessada na sua proposta. Organizamos entre Abril e Maio um curso de Permacultura. Fizemos um concerto de celebração deste evento, na Biblioteca Pública de Évora, de Som Meditativo, com o projecto Ómega. É uma viagem sonora através de instrumentos asiáticos mas também de sons da Natureza. é a 4ª vez que trabalhamos com este grupo composto por dois músicos com formação jazistica mas também de musicoterapia. O Rui Martins e a Cláudia Duarte que também tem formação no canto clássico indiano e é aluna da Maria João. Desses encontros nasceu a ideia de um festival de musicas a que por agora chamei de expansão da consciência. Estou apaixonada pela ideia e lembrei-me de lhe escrever acalentando a possibilidade de o poder ter neste projecto.

    Att. Rosário Vivas

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